terça-feira, 26 fevereiro 2013 10:47

Nova visita a Goa, a Galiza da Índia. Assinatura do protocolo de colaboração entre a SLG e a AGLP

José Paz Rodrigues (*) - Acompanhado do meu estudante de castelhano e português Toton Kundu, por quarta vez voltei desde a Santiniketon bengalesa, à terra indiana de Goa, de que muito gosto. Quando viajo aquela linda terra que banha o Mar Arábico, e foi portuguesa durante 451 anos, parece-me estar na minha Galiza.

José Paz Rodrigues (*) - Acompanhado do meu estudante de castelhano e português Toton Kundu, por quarta vez voltei desde a Santiniketon bengalesa, à terra indiana de Goa, de que muito gosto. Quando viajo aquela linda terra que banha o Mar Arábico, e foi portuguesa durante 451 anos, parece-me estar na minha Galiza. Ademais de ser o território indiano mais rico e de maior nível em todos os sensos, a paisagem, as suas praias, o seu mar, a sua culinária, parecem os galegos. Só muda a temperatura, com mais de 10 graus por cima da galega, e a vegetação, pois em Goa no lugar de carvalhos há palmeiras, e no lugar de castanheiros abundam os coqueiros.

No dia 28 de janeiro de madrugada, saímos do aeroporto de Calcutá (hoje de nome oficial Kolkata), via Mumbai (nome atual da antiga Bombaim). À tarde estávamos na Pousada Afonso do bairro de Fontainhas e ainda pudemos comer no restaurante «Viva Panjim» uma boa caldeirada de peixe. Regressamos o 6 de fevereiro a meio-dia, esta vez via Bangalore. Dormimos no hotel de Kolkata essa noite e no dia 7, de comboio, voltamos para a Santiniketon de Tagore.

Esta minha quarta visita a Goa teve essencialmente duas motivações, uma académica e outra turística. Aproveitei ademais para visitar de novo os meus amigos Suresh Amonkar e Aurora Couto em Mapuçá e Bardez, a Percival Noronha na capital Pangim, grande cronista goês, com elevada idade, mas que se conserva muito bem e com uma memória prodigiosa. Na mesma capital, e muito perto do nosso hotel, visitei de novo Ofélia de Sá, filha do grande tagoreano Renato de Sá, farmacêutico e diretor da publicação periódica «A Harpa Goesa». Também em Curtorim-Margão a Rafael Viegas, que durante dous dias, ele e sua mulher Mariana, nos acolheu na sua formosa casa de campo, e nos facilitou conhecer Álvaro Peris da Costa Sardinha, o que nos acompanhou durante vários dias e nos acolheu no seu paço ao lado da igreja paroquial que tem como padroeira a Virgem de Guadalupe. Como é natural, isto nos trouxe a lembrança de Rianjo e a nossa canção mais popular «A Rianjeira». Visitamos o paço de Aurobindo Xavier e sua esposa alemã Margarida, secretário e «alma mater» da Sociedade Lusófona de Goa. Tivem a oportunidade de conhece-lo pessoalmente e falar, tomando um chã, de muitos temas de Goa, Galiza e a Lusofonia. De volta para Pangim, por ficar no caminho, visitei de novo na sua casa a minha grande amiga, bibliotecária reformada da Biblioteca Central goesa, Lourdes Bravo da Costa, e seu esposo Lionel Rodrigues.

De manhã tive a feliz iniciativa de visitar os locais da Fundação Oriente, situados muito próximos do meu hotel em Fontainhas. Ademais de olhar uma formosa exposição pictórica da autoria de António Xavier Trindade, entrevistei-me com o delegado atual da Fundação Dr. Eduardo Carvalho. Entreguei-lhe cópia dos meus trabalhos sobre Tagore e a lusofonia e da palestra que ia pronunciar o dia 4 de fevereiro à tarde na Biblioteca Central goesa. Ele teve a gentileza de nos convidar ao meu estudante e a mim aos atos culturais e musicais que, organizados pela sua Fundação, iam ter lugar as tardes-noites de 1, 2 e 3 de fevereiro, no contexto incomparável do adro e igreja da Nossa Senhora do Monte, lugar no alto a partir de que pode olhar-se a linda paisagem das ribeiras do rio Mandovi, as suas fragas de frondosas árvores e os formosos monumentos da antiga Goa, com a sua catedral em primeiro termo. Assistimos aos atos nos dias 2 e 3, acompanhados por Viegas e Peris da Costa. Desfrutamos muito com as danças indianas e goesas, com a música e canções sacras de Bach, Mozart, Mendelssohn, Haynd, Haendel, Schubert e, muito especialmente, na última noite, com os fados do grande cantor de Amarante, residente em Lisboa, Marco Rodrigues, para mim uma verdadeira revelação. Durante dous dias, às tardes, banhámos-nos nas temperadas águas do mar Arábico, nas lindas praias goesas de Baga ao norte de Goa e de Barca ao sul, muito perto da cidade de Margão, a de mais testemunhos portugueses, com verdadeiros paços e fazendas arredor. Aproveitamos também para conhecer as casas onde nasceram os dous grandes tagoreanos goesesTelo de Mascarenhas e Propércia Correia Afonso de Figueiredo. Tiramos muitas fotos das mesmas, e no caso da segunda estivemos com dous dos seus sobrinhos António e Joaquim Correia. Uma tarde visitamos o extraordinário paço da família Menezes Bragança, ao lado do que se encontra a igreja da Nossa Senhora de Belém. Os exteriores e interiores deste paço são realmente impressionantes.

Na Sociedade Lusófona de Goa

Na tarde do dia 4 de fevereiro, na extraordinária nova biblioteca central do estado indiano de Goa, na sua capital Pangim, convidado pola Sociedade Lusófona de Goa, há pouco tempo criada e gerida, entre outros, por Mário Silva e Aurobindo Xavier, pronunciei na sua sala de conferências uma palestra sob o título de «Percepção e influência de Tagore em Goa». Exprimim-me em galego-português e fum compreendido pola totalidade dos asistentes, muitos grandes inteletuais goeses, entre os que se encontrava o delegado da Fundação Oriente Eduardo Carvalho, professores, médicos e juízes, homens e mulheres que seguiram com grande interesse o meu discurso sobre os tagoreanos goeses, tema que para muitos era totalmente novo. Pola acolhida que teve cheguei a emocionar-me de verdade e fum entrevistado ao final pola jornalista do diário O Heraldo Diana Fernandes.

Antes de iniciar a minha alocução, no mesmo local, teve lugar um ato para realizar a assinatura do protocolo de colaboração entre a Sociedade Lúsófona de Goa (SLG) e a Academia Galega de Língua Portuguesa (AGLP). Por parte goesa assinou o secretário Aurobindo Xavier, que de forma sintética explicou antes aos assistentes os objetivos da SLG e os do protocolo que se ia assinar. Representando a AGLP, com autorização prévia do presidente e secretário da mesma, assinei eu. O mencionado protocolo estava assinado tão só de forma digital por Aurobindo e polo presidente Martinho Montero.

A seguir, no meu depoimento, que em texto aparte vai ser publicado no PGL, como um meu artigo, falei dos grandes tagoreanos goeses Telo de Mascarenhas, Adeodato Barreto, Propércia Correia Afonso de Figueiredo, Renato de Sá, Froilano de Melo e outros tagoreanos menores. Para o final deixei os tagoreanos mais importantes da lusofonia. No caso do Brasil, Cecília Meireles, Guilherme de Almeida, Abgar Renault e Ivo Storniolo. Os portugueses Bento de Jesus Caraça e Augusto Casimiro, a angolana Wanda Ramos e os galegos Vicente Risco e João Vicente Biqueira. Antes da minha palestra conhecim outros tagoreanos goeses, felizmente ainda vivos, polo que me vejo obrigado a acrescentar o meu trabalho de pesquisa para uma próxima publicação. Os assistentes, com os que me comprometim a voltar de novo a Goa proximamente, e a ministrar outra palestra sob o tema que a Sociedade Lusófona estimar conveniente, realizaram muitas perguntas sobre o que eu falei, tanto sobre Goa como sobre as diferentes facetas de Robindronath Tagore, nomeadamente a educativa.

Não quero deixar de assinalar que uma das cousas das que mais gosto de Goa é o de me poder exprimir na minha língua materna. No bairro de Fontainhas da capital Pangim e nos distritos de Mapuçá e Margão são muitas as pessoas que falam em português, e ademais muito claro. A Janette e seu filho Clifton da Pousada Afonso, em que sempre me hospedo quando vou a Goa, falam um português perfeito, ademais de outras línguas. No mesmo bairro deste seu lindo hotel, todas as pessoas maiores de 50 anos se exprimem em português e é um prazer conversar com elas das suas janelas. Por outra parte, a língua oficial e própria de Goa é o koncani, que espero poder falar algum dia. Todos os goeses a falam e lhe têm um grande aprecio, muito similar ao que têm os bengaleses com o seu formoso Bangla.

Santiniketon-Bengala, a 21 de fevereiro de 2013, no Dia Internacional da Língua Materna.

(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.

Rodapés de fotos:

Foto 1: Durante a palestra na sala de conferências (à minha esquerda está Aurobindo Xavier e à sua Mário Silva, ambos dinamizadores da SLG. À minha direita está Álvaro Peris da Costa Sardinha).

Foto 2: Diante da Biblioteca Central de Goa, antes da palestra.

Foto 3: Entrevistado Por Diana Fernandes para o diário O Heraldo de Goa.

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