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 Maria Dovigo (AC Pró-AGLP) e Renato Epifânio (MIL)

Maria Dovigo (AC Pró-AGLP) e Renato Epifânio (MIL)
durante o ato realizado em Lisboa em 18 de junho de 2011

A Associação Cultural Pró Academia Galega da Língua Portuguesa acaba de assinar um protocolo de colaboração e apoio recíproco com o Movimento Internacional Lusófono (MIL). O ato teve lugar em Lisboa, neste passado sábado, dia 18 de junho, pelas 15h30. O documento foi assinado pela presidenta da AC Pró-AGLP, a professora Irene Veiga e pelo presidente do MIL, professor Dr. Renato Epifânio.

O protocolo entre a AC Pró-AGLP e o MIL tem como objetivo principal o da promoção das relações e intercâmbios culturais, científicos e educacionais nos domínios de interesse comum, concretizando um dos fins associativos da Pró Academia: o de "promover a cultura da Galiza e do conjunto da Lusofonia".

As atividades de colaboração que se desenvolverão apartir desta assinatura focar-se-ão nos seguintes aspetos do conhecimento da Lusofonia, a língua portuguesa e a história e cultura comum partilhadas pela Galiza, Portugal e o conjunto da Lusofonia: a programação de estudos, investigações, atividades de formação e divulgação, a organização e execução de publicações, cursos, seminários, congressos e outras atuações de caráter científico ou de divulgação cultural e o intercâmbio proporcionado pelo material bibliográfico e pelas ligações hipertextuais nos portais virtuais das respetivas entidades.

A AC Pró-AGLP esteve representada pela Maria Seoane Dovigo, quem leu um pequeno discurso sobre a génese da Associação Cultural Pró Academia, da Academia, os seus fins estatutários e a relevância da assinatura deste protocolo perante um variado público composto por pessoas de vários países lusófonos que ficaram assim a conhecer o nosso percurso e objetivos e que acolheram com simpatia quer a assinatura do protocolo quer as palavras da nossa representante.

Vídeo da intervenção de Maria Dovigo
na assinatura do protocolo Pró-AGLP / MIL

Vídeo no YouTube: movimentolusofono

Texto da intervenção de Maria Dovigo

A criação da Associação Cultural Pró Academia Galega da Língua Portuguesa em 1 de dezembro de 2007 teve como primeira tarefa a constituição da Academia, facto que se concretizou em 20 de setembro de 2008 e que teve a sua sessão inaugural em 6 de outubro do mesmo ano, em Compostela. Nesse dia o Dr. Ângelo Cristóvão visou que tal projeto nascia da necessidade sentida por muitos de criar uma nova academia que se regesse pelo critério científico defendido por tantos de que o chamado "galego" não é outra língua se não o português falado na Galiza. Tal princípio foi defendido por filólogos como Rodrigues Lapa, Carvalho Calero, Guerra da Cal, Lindley Cintra ou Celso Cunha e, como lembrou na sua intervenção o professor Montero Santalha, pelos maiores vultos da tradição cultural galeguista, desde o historiador e fundador da primeira Academia Galega em 1906, Manuel Murguia, os seus companheiros de geração, como Eduardo Pondal, à geração Nós, que tem como referente a fundação das Irmandades da Fala, a primeira delas na cidade da Crunha em 1916. Herdamos dos mestres o nosso compromisso pela dignificação da Galiza. Com humildade e com a vontade renovada de servir à nossa cultura e ao nosso país, não desertamos da bandeira que Rosalia de Castro ergueu com a publicação dos seus Cantares galegos em 1863 e que gerações posteriores foram capazes de manter levantada com um heroísmo no que, em trágicos momentos históricos, lhes demandou a muitos a vida, a outros o exílio ou o silêncio.

O compromisso com o país demanda da nossa Academia e da Associação Cultural que lhe dá suporte os princípios regem a nossa atuação: defender a unidade da língua, o uso correto e a sua naturalização no território galego, facilitar o intercâmbio cultural da Galiza com o conjunto da Lusofonia e promover o conhecimento recíproco. O empenho na concretização destes princípios já deu frutos em publicações (o boletim da AGLP, a coleção de Clássicos da Galiza, o Léxico da Galiza) e nas numerosas parcerias que nos unem com instituições de toda a Lusofonia. Neste ano deu-se mais um passo com a criação da Fundação Academia Galega da Língua Portuguesa.

Acompanhando a criação da Fundação que agora sedia a Academia, a Associação decidiu alargar os seus fins associativos, explicitando um inerente a toda a nossa atividade: "Promover a cultura da Galiza e do conjunto da Lusofonia". O protocolo que hoje assinamos o Movimento Internacional Lusófono e a Associação Cultural Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa é um momento feliz e importante na formalização da colaboração de duas entidades que tanto têm em comum pelo seu compromisso cívico ao serviço da Lusofonia.

Não podemos deixar de dizer que esse apoio à Galiza como integrante da comunidade lusófona demanda dos seus pares um compromisso diferente. Castelão no seu Sempre em Galiza, publicado em Buenos Aires em 1945, recriando a morte de Inês de Castro, interpretava assim a separação de Portugal e a Galiza:

"Que importa que Inês de Castro reinasse em Portugal depois de morta (...). Triunfamos em Portugal, depois de mortos, -pela língua, a arte e o espírito-; e só Portugal pôde cumprir a missão do Além, criada nas lonjuras que descobrira o nosso Fisterre".

"Os amores galaico-portugueses sempre foram trágicos, verdadeiros, e não se apaga o sangue que os afogou. Este sangue trocou-se em fronteira de muito proveito para Castela e de muitos males para Portugal e a Galiza".

Agostinho da Silva também apontava no seu "Considerando o Quinto Império": "Portugueses não começaram pela terra. De terra quiseram apenas aquilo que Castela lhes tomaria se pudesse. E tão pouco ansiosos eram de terra que mesmo uma parte do que com eles deveria ficar facilmente a deixaram entregue ao ímpeto centralista da meseta, por aqui cometendo a sua primeira falta histórica, a de terem desistido da Galiza. Para o êxito imediato, que era o de garantir uma fronteira que defendesse da Espanha, tal como ela se ia formar, já preparando o caminho de Carlos V, deixaram a Galiza entregue à sua sorte: os cavaleiros portugueses traíram as meninas que nas cantigas de amigo choravam sua ausência e ansiavam por suas romarias. As cervas do monte que volviam às águas as encontravam desertas; rios de lágrimas que nunca mais pararam de correr. (...) Nunca se devia ter abandonado a Galiza; se havia que morrer, havia que morrer junto com ela."

A Galiza continua a não ser hoje um país soberano e o destino da língua não está à margem deste facto. Sabem-no sobretudo os que nas últimas décadas mantiveram a defesa da integração do nosso país na Lusofonia. O português vive numa difícil situação em parte do território que foi o seu berço por causa do isolamento da Galiza em relação aos seus pares lusófonos. Mas, como nos ensinou o professor Carvalho Calero, "esperar contra toda esperança pode servir de lema aos galegos. Há que esperar contra toda esperança, porque enquanto não decidamos suicidar-nos como povo temos que confiar na possibilidade de retificar a história, e a história, com certeza, tem de ser retificada". A nossa história, a dos galegos, mas também a nossa comum, não só a que nos une a vós, portugueses, mas também à do conjunto dos que temos nesta língua que agora falamos o nosso elo de união. A força do azar histórico não pode pesar mais do que a nossa vontade de construirmos o nosso destino desde o compromisso cívico. Com um misto de humildade e convicção de que do sucesso do nosso trabalho depende em grande medida a sobrevivência da Galiza, encetamos o nosso caminho desde a criação da nossa Associação. Com a assinatura deste protocolo escrevemos um novo capítulo, matriz duma colaboração mais estreita e continuada ainda entre as nossas entidades, nesse esforço de todos por colocar a Galiza no espaço que lhe é próprio, em pé de igualdade com os seus pares lusófonos. Esperamos desta cooperação não só benefícios para a Galiza, mas para toda a Lusofonia, e assim cumprir o que com a grandeza que o caracterizava nos demandou Agostinho da Silva, aquele que tanto esperava da imaginação do povo galego, no seu "Testemunho brasileiro":

"Este, pois, será o testemunho que vos daremos sempre que for possível; o testemunho da vossa própria grandeza de primeira origem em aquilo que fomos sendo grandes; da nossa força estamos nós certos: mas verão como ainda nos será útil muito da vossa guia, da vossa reflexão, da vossa experiência de tanto século."

(Maria Seoane Dovigo, em representação da Associação Cultural Pró Academia Galega da Língua Portuguesa).

Lisboa, 18 de junho de 2011